Para pairar e ler um pouco de tudo. Para se sentir que existe vida aqui. Fotografias tiradas de www.flickr.com
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domingo, 20 de abril de 2008

Thomas Wilson

Acima de tudo, ela deu-me algo por que viver!
Os seus braços são capazes
de afastar qualquer cuidado;
as suas palavras são o meu consolo
e inspiração...
E tudo isso,
porque o amor que ela me tem
é a minha vida.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Luiz Pacheco

Estava a ler o post do Bruno Nogueira e achei interessante deixar aqui o excerto que ele pôs em homenagem a Luiz Pacheco, escritor que morreu aos 82 anos.
À medida que vamos envelhecendo os medos tornam-se outros e o medo da morte aproxima-se para alguns.

Aqui fica:
"Quando a dor no peito me oprime, corre o ombro, o braço esquerdo, surge nas costas, tumifica a carótida e dá-lhe um calor que não gosto; quando a respiração se acelera em busca duma lufada que a renasça, o medo da morte afinal se escancara (medo-mor, tamanha injustiça, torpeza infinita), aperto a mão da Irene, a sua mão débil e branca. Quero acordá-la. E digo : «não me deixes morrer, não deixes…» Penso para comigo, repito para me convencer: «esta pequena mão, âncora de carne em vida, estas amarras suas veias artérias palpitantes, este peso dum corpo e este calor, não me deixarão partir ainda…» E aperto-lhe a mão com força, e acabo às vezes por adormecer assim, quase confiante, agarrado à sua vida. Ah, são as mulheres que nos prendem à terra, a velha terra-mãe, eu sei, eu sei ! São elas que nos salvam do silêncio implacável, do esquecimento definitivo, elas que nos transportam ao futuro, à imortalidade na espécie (nem teremos outra) pelo fruto bendito do seu ventre (eu sei, eu sei…)"

Excerto de "Comunidade", de Luiz Pacheco.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Escritores e escritores

Pairam palavras. Temos papel, um lápis e a mente. Temos todos os elementos para escrever. No entanto, como é dificil finalizar o desejo de marcar para toda a eternidade os nossos pensamentos; como é dificil traduzi-los e endireitá-los num texto que dê gozo de ser lido.
Ao ver a entrevista do escritor que não conheço - António Lobo Antunes, só conheço mesmo de nome, deu-me vontade de escrever. Deu-me vontade de conhecer a sua obra, porque a maneira de falar, a pausa antes de responder às perguntas, o modo de encontrar a resposta; tudo me disse - é um autêntico e natural escritor.
Aqui fica a entrevista que, apesar de ser meia-hora e vocês pensem que é muito tempo, vale a pena de ver, porque tem mesmo muitas frases, muitos pensamentos, muitas reflexões, muita riqueza que devemos aprender e tirar proveito no nosso dia-a-dia.



Já agora, fica aqui o link para o post do Pedro Ribeiro que me levou a escrever também sobre esta entrevista.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

.:Poemas:. (II)

Apesar de ontem não ter dito nada acerca do poema que pus aqui, queria dizer que o adorei mesmo e por isso é que o pus aqui. Apesar de não gostar muito da Ode Triunfal, dos heterónimos mais conhecidos de Fernando Pessoa, Álvaro de Campos é aquele que mais aprecio e com quem digo "ahh, eu não saberia como descrever melhor este sentimento!".
Aqui fica a primeira estrofe do poema "Tabacaria", um daqueles poemas que também gostei muito, mas demasiado longo para o escrever aqui integralmente:
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Susana

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

.:Poemas:. (aula de português)

Começa a haver meia-noite, e a haver sossego,
Por toda a parte das casas sobrepostas,
Os andares vários da acumulação da vida...
Calaram o piano no terceiro andar...
Não oiço já passos no segundo andar...
No rés-do-chão o rádio está em silêncio...

Vai tudo dormir...

Fico sozinho com o universo inteiro.
Nem quero ir à janela:
Se eu olhar, que de estrelas!
Que grandes silêncios maiores há no alto!
Que céu anti-citadino!...

Antes, recluso
Num desejo de não ser recluso,
Escuto ansiosamente os ruídos da rua...
Um automóvel - demasiado rápido! -
Os duplos passos em conversas falam-me...
O som de um portão que se fecha brusco dói-me...

Vai tudo dormir...

Só eu velo, sonolentamente escutando,...
Esperando
Qualquer coisa antes que durma...
Qualquer coisa...
9/8/1934 Álvaro de Campos

sábado, 28 de julho de 2007

Os Amigos

Desde do dia que comecei a ir à missa a Santa Isabel, em Lisboa, comecei a adorar a maneira de falar e transmitir do Sr. Padre José Tolentino.
Mais tarde soube que ele também escrevia poesia e já por várias vezes tive para comprar um livro. Comecei a investigar poemas na internet..até que, sem esperar mesmo, a minha porfessora de português, me deu o livro dele, que por acaso tinha o poema que eu já tinha lido na aula.

Aqui fica um poema sobre os Amigos..

Os amigos

Esses estranhos que nós amamos
e nos amam.
Olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide,
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura.
Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis.

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor .
José Tolentino Mendonça

A las cinco de la tarde!

Depois de ter estado em casa em recuperação, começo a ficar com saudades de uma arena, de uma boa tarde de toiros, começo a ficar com saudades da festa brava.
Eu sabia que o Frederico Garcia Lorca também gostava de touradas e por isso resolvi procurar num livro que me emprestaram, o seu famoso poema sobre a tourada "de las cinco de la tarde". Aqui vai:

LA COGIDA Y LA MUERTE

A las cinco de la tarde.
Eran las cinco en punto de la tarde.
Un niño trajo la blanca sábana
a las cinco de la tarde.
Una espuerta de cal ya prevenida
a las cinco de la tarde.
Lo demás era muerte y sólo muerte
a las cinco de la tarde.
El viento se llevó los algodones
a las cinco de la tarde.
Y el óxido sembró cristal y níquel
a las cinco de la tarde.
Ya luchan la paloma y el leopardo
a las cinco de la tarde.
Y un muslo con un asta desolada
a las cinco de la tarde.
Comenzaron los sones del bordón
a las cinco de la tarde.
Las campanas de arsénico y el humo
a las cinco de la tarde.
En las esquinas grupos de silencio
a las cinco de la tarde.
¡Y el toro, solo corazón arriba!
a las cinco de la tarde.
Cuando el sudor de nieve fue llegando
a las cinco de la tarde,
cuando la plaza se cubrió de yodo
a las cinco de la tarde,
la muerte puso huevos en la herida
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
A las cinco en punto de la tarde.

Un ataúd con ruedas es la cama
a las cinco de la tarde.
Huesos y flautas suenan en su oído
a las cinco de la tarde.
El toro ya mugía por su frente
a las cinco de la tarde.
El cuarto se irisaba de agonía
a las cinco de la tarde.
A lo lejos ya viene la gangrena
a las cinco de la tarde.
Trompa de lirio por las verdes ingles
a las cinco de la tarde.
Las heridas quemaban como soles
a las cinco de la tarde,
y el gentío rompía las ventanas
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
¡Ay qué terribles cinco de la tarde!
¡Eran las cinco en todos los relojes!
¡Eran las cinco en sombra de la tarde!

Frederico Garcia Lorca

terça-feira, 12 de junho de 2007

Fim do Banco

Estava a passar pelo blog do Bruno Nogueira, humorista de se lhe tirar o chapéu, e li o seu ultimo post que, para minha surpresa, foi muito filosófico (não esperava que fosse tão filosófico porque de tudo o que li do "rapaz", é sempre comédia), chamado Fim do Banco. Assim, por ter gostado tanto, pensei: "Vou fazer um post de divulgação do blog e do texto do Bruno Nogueira" e aqui está. Passo agora a mostrar o texto:

Fim do Banco

A idade vai comendo a vida.
Vai ratando o futuro, e nós (eles) a verem.
Acorda-se com um dia a menos, e adormece-se com um dia a mais.
O calendário vai-nos mudando o corpo.
Vai-nos empurrando as costas, para a queda ser pequena.
Os velhos sabem de cor o chão.
Como quem sabe que está quase a chegar lá.
Desde que perdi a minha avó, que ganhei o respeito por quem mora no terceiro andar da idade.
Perde-se para ganhar.
E assim foi.
Emociona-me.
Que vida inteira pode ser sentada sozinha, num banco de jardim?
Com a idade, nunca escolhem o meio, sempre o fim do banco.
Em crianças, teriam-se sentado na outra ponta?
E deixam-se estar.
Respiram como podem.
Os olhos já não procuram nada.
Já viram tudo.
Vão guardando o passado em rugas, para libertar a cabeça.
Em que pensam?
Na morte?
Os velhos não vivem.
Deixam-se viver.
Os filhos já tem a vida deles, não os querem.
Tem de ir viajar e fazer compras para o jantar.
"O pai tem estado bem? Então vá, um beijinho."
Picaram o ponto, e para eles está feito.
Os novos choram com o corpo todo, gritam e fazem caras de quem sofre.
Os velhos choram só com os olhos, que o resto não se vê.
E assim o fazem, no fim do telefonema.
Ninguém os quer com as doenças cheias de idade.
As mãos da idade cheiram a tudo, com as veias cansadas de mostrar o sangue a toda a gente.
As pernas vão perdendo caminho.
Os braços deixam de abraçar.
O coração começa a falhar, já bateu demais mesmo para quem amou pouco.
Vai-se esquecendo de bater.
E uma noite, sem avisar, desaprende.
Desliga os olhos e atira o corpo para o fim.
Ocupam agora o banco todo.
Do principio ao fim, todo ele é corpo.
E os filhos, cansados de telefonar, resmungam.
Morreram oitenta e dois anos, e nem mais um dia.
A cidade não pára, o mundo não interrompe, nada.
Os filhos enterram vinte anos, e guardam os outros sessenta e dois.
Os últimos vinte davam trabalho e de pouco valiam.
Não tem vagar para os guardar.
Mas de hoje em diante, esses vinte vão acordá-los todos os dias.
Até se deitarem sozinhos no banco que os vai deitar.

posted by Bruno Nogueira



Gostaram?
Acho que não punha nem mais um ponto.






Susana